00:21Manhã · cozinha
Ele acorda e o número continua lá.
O calendário com o 5,50 escrito à mão no lugar do dia 5. A piada é a repetição. Não foi um dia ruim, é todo dia.
50mm travadoLuz manhã cruaSom cozinha vazia
ClienteUberAffordability · Preço Único
AgênciaWieden+KennedySão Paulo
FilmeNão é promoção?30", 15" e dois 6"
DireçãoPedro GiomiAurora
Leitura20 min
Por que este filme não é sobre um homem surtando.
O trabalho dele é anunciar que a oferta vai acabar. Aqui não tem oferta, tem preço, e preço não acaba.
Promoção é o idioma nativo desse homem, e é assim que o público o reconhece. Na segunda fala o diretor tira a promoção da mesa. Não existe promoção nenhuma, existe um preço, e preço não tem data para acabar. E aí o chão cai, porque afinal, a persona dele depende de uma oferta com prazo.
Quem reconhece esse rosto já sabe o que vem depois. O gesto, o volume, a oferta. O humor não está no que acontece com ele, está no que a gente sabe que ele faria e ele não faz.
Quebra de expectativa não se atua, se constrói.
O silêncio é o registro em que ele menos trabalhou, e é onde este filme mora. Meu trabalho é proteger as menores reações. A escala tem quatro camadas decrescentes.
Um homem mais velho, com estrada, gentil e sem nenhum timing de comédia. Ele diz a frase em volume normal, sem pausa antes e sem pausa depois, e volta a olhar o monitor. A câmera nunca vai até ele. Fica sempre fora de foco ou fora de quadro, e a frase chega pelo rosto do Fabiano em vez da boca de quem falou.
Trinta segundos montados fora de ordem. São vários dias e várias noites depois da notícia, e não uma noite só. Cada plano é marcado pela luz que serve à cena, e não pelo relógio.
Os tempos abaixo marcam a posição de cada plano na narrativa, não a duração final de cada um. A decupagem tem mais planos do que trinta segundos comportam no ritmo que este tratamento defende, e é na ilha, com o material rodado, que se decide o que fica.
Os primeiros oito segundos são comercial de varejo e entregam o que o espectador foi condicionado a esperar. Aí o diretor fala “não é promoção” e o filme para de ser comercial. A gramática muda no mesmo segundo em que ele muda, e a mudança dramatiza o efeito da notícia em vez de decorar a cena.
A montagem tem dois ritmos. O bloco do estúdio corta rápido, no ritmo do próprio comercial. Depois da notícia os cortes são elípticos, entre situações e dias diferentes, e cada plano tem tempo de assentar antes de sair. Na ilha, esses dois ritmos não podem ser nivelados.
Antes · 00:00 a 00:08
Depois · 00:08 a 00:30
O roteiro original funciona perfeitamente como está. O que vem abaixo não são correções, e cada proposta vem com a versão fiel ao texto original do lado. Se as três caírem, o roteiro original segue de pé e eu estou feliz com ele.
Uma coisa vale nas três propostas. Melancolia, nunca depressão. A crise dele funciona porque ele continua digno, e se ele parecer um homem adoecido a graça se perde e a marca fica no lugar errado da história.
A gente segue enquadrando ele como comercial de varejo, com a folga que existe para a oferta entrar. E não entra nada. É piada de composição e dura o filme inteiro sem nunca ser apontada.

00:00Dia · estúdio
FabianoOpa. Promoção é comigo mesmo.
Grande angular, luz de comercial, nenhuma ironia. Bonito de propósito e falso de propósito.
21mm na mãoLuz de comercialSom mundo cheio

00:05Dia · estúdio
DiretorSó tem uma coisinha: não é promoção. É R$ 5,50 para qualquer viagem de Uber Moto de até 3 km. Sempre.
Fica na cara dele enquanto a frase inteira é dita. Depois desta fala a câmera fica estática, e só volta a andar no último plano.
85mm travadoFill morrendoSom a publicidade sai

00:15Uma noite · cozinha
É o arquivo da vida dele. Encarte sobre encarte, trinta anos de ofertas que ele anunciou e que já acabaram, guardadas ali como quem guarda foto de formatura. E no de cima, virado para a câmera, o 5,50.
O que muda a imagem aqui é a gaveta, e não o corte nem a lente. Ela é puxada num tranco só, dentro do plano, e o quadro inteiro se transforma por conta desse movimento. Por isso a câmera fica de cima e travada, para o movimento ter para onde acontecer. Nada voa, nada é revirado.
50mm de cima, travadoLuz da cozinhaSom a gaveta abrindo

00:17Outra tarde · sala
Ele perplexo com a própria capa. O produto e a marca sumiram da equação, e sobrou ele associado ao número.
35mm travadoLuz da janelaSom papel

00:1905:50 · quarto
FabianoE não é promoção…
O corpo dele reage antes da cabeça. O despertador não pisca nem cresce, marca 5:50 porque é a hora que é. Ele acorda com o número na cabeça, e a gente entende que isso vem acontecendo há dias.
50mm travadoLuz do próprio relógioSom respiração
00:21Manhã · cozinha
O calendário com o 5,50 escrito à mão no lugar do dia 5. A piada é a repetição. Não foi um dia ruim, é todo dia.
50mm travadoLuz manhã cruaSom cozinha vazia
00:23Fim de tarde · janela
Lá fora, um outdoor de varejo oferecendo 5x de R$ 50, o oposto exato de um preço só, para sempre. As duas plaquinhas ficam uma de frente para a outra, e ninguém precisa dizer isso em voz alta.
85mm travadoLuz contraluz da janelaSom a cidade

00:25Madrugada · praça
Fabiano3 km por R$ 5,50… e não é promoção?!!!
Vem da janela e corta direto no detalhe da placa do pedestal. A data em romanos, MDL, que é 1550. Jogado completamente reto, sem ênfase e sem tempo sobrando, para quem quiser ver. Ele está olhando para ela.
Abre. Agora são os dois no quadro, ele pequeno e a estátua grande, e a gente entende de uma vez que ele está discutindo com uma estátua. É o plano mais aberto do filme e deixa o eco existir antes de qualquer reação.
Corta para o ponto de vista da estátua, de cima para baixo, olhando para ele. É um ponto de vista atribuído à estátua, e a escala faz o trabalho cômico. Visto de lá de cima, ele é pequeno. Nenhuma reação de terceiro, nenhuma trilha avisando. Daqui sai o resto do filme.
3 planos 100mm detalhe · 35mm aberto · 24mm de cimaLuz vapor de sódioSom eco e nada

00:27Madrugada · praça
FabianoIh, não é que é R$ 5,50 mesmo…
Esse plano nasce do fundo do poço e acontece na mesma praça, sem sair do lugar. Depois de ser diminuído pela estátua, ele recorre ao reflexo profissional de conferir as condições da oferta. Ele não abre o aplicativo para pedir moto, abre para pegar a Uber na mentira. É a última defesa profissional que ele tem, e ela dá o motivo de o filme correr para o fim.
Ao fundo da praça, desfocado, um painel da Uber com o 5,50. Esse painel dispensa o plano dele andando na rua e lendo o outdoor. A informação já está no quadro, sem full frame e sem ênfase, e ele já não tem para onde correr. Menos de 3 km, R$ 5,50 na tela, e a conta bate.
2 planos insert · closeLuz da tela e do sódioSom a cidade

00:29Manhã · avenida
Primeiro o close no rosto dele, percebendo que é verdade. Sorriso pequeno, para dentro, sem plateia.
Aí corta, e pela primeira vez em trinta segundos a câmera anda. Um travelling para trás, abrindo, enquanto a moto sai, vira à esquerda e some pelo meio da avenida, direto no ponto de fuga, ficando pequena. A câmera recua enquanto a moto se afasta pelo outro lado, e a distância entre os dois cresce dos dois jeitos ao mesmo tempo. O filme inteiro segurou a câmera parada para este movimento significar alguma coisa. Entra o letreiro, e é a primeira vez que o 5,50 aparece como tipografia da campanha, e não como número dentro da cena.
50mm travelling backLuz primeira do diaSom o único crescendo
Não é promoção, é Preço Único.
Viagens em Uber Moto de até 3 km por R$ 5,50. Sempre.
Aí sim.

TagDia · estúdio
EquipeEle voltou! Bora rodar!
Não precisa chegar de moto, e é melhor que não chegue. Ele entra no estúdio com o capacete já na mão, e é só isso. Quem grita é a equipe; ele não. O diretor, um homem de cinquenta e poucos com estrada, vem, põe o roteiro na mão dele, e os dois saem de quadro andando e conversando, sem plano de reação e sem botão. Abre com um homem que sabia o que dizer e fecha com um que já não precisa.
50mm travadoLuz dia realSom a voz volta menor
Som, arte e luz, e os formatos que chegaram em aberto.
O som do filme só desce. E só sobe de novo no último plano.
Abre no volume dele, com um jingle de varejo de verdade, do tipo que sempre correu embaixo da voz dele. Na frase do diretor o jingle para no meio do compasso, e sobra o som do lugar. Chuveiro, colher na cerâmica, um despertador, um eco de praça vazia.
A única vez que o som volta a subir é o motor da moto, no plano final. E em cima dele volta o motivo do jingle, lento, num instrumento só. A mesma frase musical que abriu o filme aos gritos, agora quase inaudível.
Nenhuma trilha cômica. A música nunca pontua as piadas. A voz de campanha aparece nos primeiros oito segundos e não volta. Tudo no miolo é meia voz, e ela só volta no estúdio, com a dicção publicitária intacta e a energia pela metade.
O mundo da promoção é encarte. O da verdade é a rua real de São Paulo entre três e seis da manhã. A casa é de um homem que ganhou dinheiro e não faz alarde. Conforto, coisas escolhidas, sinais de vida real. Se for cafona, a piada vira deboche e a gente perde o público que gosta dele. Nada na casa faz piada com a carreira dele.
Quatro opções de 15", duas de 6" e quatro peças de social, todas já fechadas. Nenhuma é redução do filme. Cada uma resolve a mesma tese com o tempo que tem.
Daqui pra frente é material de consulta, para pular direto no formato que interessa.
A terapeuta para corrigir, o médico para perguntar, o amigo indo embora, o diretor no meio do bordão. Olhando os seis juntos, é a mesma máquina rodando em tempos diferentes, e nenhum deles precisou do filme de trinta segundos para funcionar.
O que decide as seis é o elenco de apoio. Nada de ator de comédia. Gente com cara de profissional de verdade, o terapeuta, o oftalmologista, o garçom, dirigida para não reagir. Ninguém dentro da cena pode achar graça, porque a graça mora aí.
OP 1 · 15"
TerapeutaRepete comigo… Não é promoção. É Preço Único.
A peça está na gagueira, e ela não é piada de ator. É bloqueio físico numa palavra que ele disse cem mil vezes com o sentido contrário. A terapeuta não reage a nada.
OP 2 · 15"
OftalmologistaO que você está vendo?
A verdade virou exame de vista, e a piada é que a visão dele está ótima. O aparelho isola um olho, e é nesse olho que a reação tem que caber, contida.
OP 3 · 15"
FabianoTá todo mundo aproveitando, Carlos… Carlos?
O único com revelação de verdade. A câmera abre e o Carlos já está na garupa. Entre os quatro, é o único que mostra o produto em uso e o único fora de um cenário de trabalho.
OP 4 · 15"
FabianoE aí? Quer-pagar…
Trinta anos de carreira em três sílabas, cortadas antes do fim. Ele começa o bordão com a confiança inteira, para que a interrupção tenha de onde derrubar.
OP 1 · 6"
Cartela na TVViagens de até 3 km por R$ 5,50.
Ele faz o comercial de sempre, mas quem anuncia é a tela. Direção: ele não percebe. Se perceber e reagir, vira outro filme.
OP 2 · 6"
Splash 2Não é promoção. É Preço Único.
Fundo infinito, ele e dois cartazes de splash, daqueles amarelos de encarte associados à persona dele. No primeiro está o preço, e ele mostra com o orgulho de sempre. Aí joga esse cartaz por cima do ombro para revelar o segundo, que corrige tudo. É o gesto que ele faz há trinta anos, feito uma última vez.
O que a gente traz para além do roteiro.
A observação de que alguém interrompe ele nos quatro filmes de 15" já estava nos roteiros. A gente só leu com atenção. E onde a direção propôs coisa diferente, deixou marcado, com a versão original ao lado.
O filme se decide em poucos planos parados, e plano parado não perdoa erro de tempo. Não existe cobertura nem efeito que conserte isso na montagem. Por isso a lente é escolhida antes, o tempo de reação é ensaiado, e no set a câmera continua rodando depois da deixa. Isso serve para ter material na ilha, e não para alongar o filme, que continua tendo trinta segundos.
O splash amarelo de encarte é o símbolo mais reconhecível do varejo brasileiro, e é onde o varejo põe o preço, o desconto e o prazo. É o resumo da profissão dele.
Então o outdoor é preto, com o splash no meio e nada escrito dentro dele. O lugar da promoção continua reservado e ninguém ocupa. Embaixo, uma linha só.
Não precisa de promoção.
Fora do escopo pedido, e livre para fazerem o que quiserem com ela.
Aurora
Tratamento de direção
A gente está aprendendo a fazer tratamento melhor. Saber o que prendeu e o que cansou ajuda a encurtar o processo para todo mundo, e a chegar mais rápido no que interessa. A gente guarda o seu nome, o seu e-mail, o tempo de leitura e até onde você desceu na página, e usa isso só para melhorar o próximo tratamento. Nada é compartilhado com terceiros. É só pedir e a gente apaga.
Quatro peças de social, e elas nascem verticais.
Quatro provas da mesma tese, no mesmo mundo e com o mesmo homem. A terceira volta para a mesa e a sopa do filme, porque a piada dele funciona melhor quando o lugar já é conhecido.
Ele vende qualquer coisa. Até parar de precisar.
“Presta atenção nessa estrutura reforçada com altíssima durabilidade.”
Pedra, tijolo, caixa vazia, cone, galho, em jump cut seco, e ele sincero em todos. Aí chega o Preço Único e a lógica da demonstração de venda desmonta.
Como reconhecer uma promoção, por quem passou trinta anos fazendo.
“Terceiro, essa é fácil: promoção tem hora pra acabar.”
Ele à esquerda, o lettering entra à direita. O texto entra linha a linha, ocupa o lado direito e vai corrigindo o que ele acabou de afirmar.
Ele procura a letra miúda na sopa e não acha.
“Não tem um ‘só hoje’ aí no fundo? E cupom? Nem um ‘consulte condições’…”
Mesma mesa, mesma sopa e mesmo figurino do filme. Ele procura a condição que sempre existiu na vida dele, não acha, e come.
O cara que ficou famoso fazendo publi com cara de publi.
“Uma publi sem cara de publi pro cara que ficou famoso fazendo publi com cara de publi…”
A câmera é o celular dele, torta, e é a única vez em que o quadro é feio de propósito. Tenta duas vezes soar espontâneo, desiste, e volta de propósito para a voz publicitária.