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tratamento de direção · Pedro Giomi · Uber Moto, Preço Único
Fabiano Augusto passou trinta anos gritando promoção na TV. Num comercial da Uber, descobre um preço que não acaba nunca. O mundo dele desaba, e ele nem tira a mão do bolso.
antes de começar
Fabiano Augusto é o homem da promoção. Trinta anos na TV gritando “só hoje”, “últimas unidades”, “quer pagar quanto?”. Ele acredita nisso. É o trabalho da vida dele.
Ele está gravando mais um comercial, agora para a Uber: viagens de Uber Moto de até 3 km por R$ 5,50. Ele anuncia como sempre anunciou, aos gritos. O diretor corta a tomada e explica: não é promoção. É o preço. Não acaba.
Para quem só sabe vender urgência, um preço que não acaba não faz sentido. O set cai em volta dele, literalmente. Nos dias seguintes, o número 5,50 aparece em tudo, e ele não consegue aceitar. Até que, de madrugada, abre o app para provar que é mentira. E é verdade.
Ele pega a moto por R$ 5,50, sem promoção nenhuma. Sobe o letreiro: Não é promoção, é Preço Único. Aí sim.
Fora de ordem. O filme pula entre a noite da gravação, as madrugadas seguintes e a manhã em que ele finalmente pega a moto. Cada cena tem uma hora. Ela aparece grande no começo da cena e pequena no canto da tela, o tempo todo. As horas se repetem porque os dias dele se repetem.
É só rolar. Cada cena trava na tela; a imagem entra por cima do texto. Embaixo, uma régua com as horas mostra em que ponto do filme você está. São cinco capítulos: narrativa, linguagem, marca, casting e social.
Comédia e ação. Um homem que viveu de promoção descobre um preço que não acaba. Contado fora de ordem, pelas horas: o relógio no canto diz sempre onde você está.
09:00estúdio · o dia da gravação
Plano aberto, estúdio branco. Fabiano grava o anúncio da Uber do jeito que gravou todos os outros: gritando, apontando, cercado de splash amarelo. Oito segundos, sem respirar.
É o mundo dele há trinta anos, e é a última vez que esse mundo aparece inteiro.
corta a tomada. de fora do quadro, a voz do diretor:
“Fabiano… não é promoção. É o preço. Não vai acabar.” Silêncio no estúdio. Plano médio nele: continua sorrindo, sem piscar.
A câmera fica nele. Enquanto ele tenta entender, o set inteiro vem abaixo atrás e em volta: paredes, refletores, treliça, a placa de promoção.
Um plano só, sem cortar. Ele sorri um segundo a mais do que devia. E no meio da poeira…
Corta para o preto.
22:40chuveiro · mesma noite
Abre em plano fechado: Fabiano no chuveiro, em casa, parado, olhando para baixo.
Match cut: o rosto no mesmo tamanho que estava no estúdio. Não é choro. É pane.
23:15cozinha
Plano fixo, simétrico. Ele janta sozinho. A colher sobe, e as letrinhas da sopa se juntam e escrevem 5,50.
Ele olha. E come. Nem uma sobrancelha. É a primeira vez que o número aparece fora do estúdio. Não vai ser a última.
05:50quarto · outro dia
Sem aviso, no meio da cena anterior, como quem acorda de um sonho. Ele abre o olho de uma vez. O despertador marca 5:50.
O corte interrompe a lógica do filme: é outro dia, e a gente só descobre junto com ele. Vem acontecendo há dias: 5:50, e o número já está ali antes dele.
07:30cozinha · sequência de cortes
Ele abre a gaveta e o passado sai em cortes secos, cada vez mais rápidos: os encartes, as revistas, o troféu, a fita.
A fita roda, o quadro fecha em 4:3, ele em 1994 apontando para a câmera. E a sequência para: ele hoje, no chão da sala, vendo a si mesmo na TV. A mesma cara, trinta anos fazendo a mesma coisa.
12:00 · o número · sequência rápida, 6 planos
Seis planos em ritmo de clipe, corte seco, um atrás do outro. Nos dias seguintes, 5,50 aparece em tudo o que ele olha. Ninguém explica nada; quem assiste entende sozinho.
Microondas
O relógio da cozinha, 5:50.
Elevador
O andar. Cinco, e o cinquenta ao lado.
Cupom
O total da padaria.
Calendário
O dia 5 virou 5,50, à mão.
Ônibus 550
Passa na frente dele. Ele nem olha.
A janela
Lá fora, um outdoor de loja: 5x de R$ 50. É o mundo antigo dele, e é o oposto exato de um preço só.
03:10praça · madrugada
Plano geral: praça vazia, ele pequeno, a estátua enorme. Ele grita para ninguém: “Três quilômetros por cinco e cinquenta… e vai ficar assim?!”
Ninguém responde. Ele fica ali, olhando para a estátua, esperando alguma coisa.
03:11praça · a placa
Plano fechado na placa de bronze. A data de fundação: 1550.
Lá está o número de novo. Até a estátua tem 5,50 dentro. Ele suspira.
03:12praça · dois minutos depois
Na mesma praça, ele abre o app para provar que é mentira e pede uma Uber Moto para casa.
Insert da tela: menos de 3 km, R$ 5,50. E é verdade. Ele, baixinho: “Ih… não é que é R$ 5,50 mesmo.”
06:20avenida · o sol nascendo
Travelling atrás da moto, o único movimento de câmera do filme. Ele na garupa, sorriso pequeno, para dentro.
Trinta anos de urgência acabaram numa corrida de R$ 5,50. A cidade acorda como se nada tivesse acontecido. Fade para o preto.
sobe o letreiro, fundo preto:
Não é promoção,
é Preço Único.
Viagens em Uber Moto de até 3 km por R$ 5,50. Sempre.
Aí sim.
Dois mundos, duas câmeras. Antes da frase do diretor, tudo parece comercial. Depois, tudo parece cinema.
Comercial.
Cinema.
A regra do filme: o que vem antes da frase do diretor parece anúncio de varejo, e o que vem depois parece cinema. Câmera, luz e corte mudam no mesmo segundo.
No anúncio, a câmera é nervosa: na mão, perto demais, sem parar quieta. No filme, ela fica parada, à distância de quem observa. Só anda uma vez, no último plano, e por isso o movimento vale alguma coisa.
Antes, luz chapada, sem sombra. Depois, só a que existe no lugar: o fluorescente do banheiro, o abajur, o próprio relógio, o vapor de sódio da praça.
O set é construído para cair: painéis em cabo, refletores em queda controlada, poeira e destroços práticos. CG só para apagar cabo e completar destroço. Um plano, sem corte, até o preto.
Oito segundos de corte rápido. Depois, cortes que respiram, e dias fora de ordem. Quem assiste nunca se perde: o rosto dele e o número 5,50 amarram as cenas. A gaveta e a sequência do número são as únicas vezes em que o ritmo acelera de novo.
O jingle para no meio do compasso, na frase do diretor. O desabamento não tem música, só madeira e metal. Daí em diante, o som do lugar. A música volta no motor da moto, num instrumento só.
Anúncio: saturado, branco, sem preto. Filme: preto fechado, pele quente, azul só onde a cidade dá. Grão fino nos dois, para o anúncio dentro do filme não parecer outro material.
A Uber aparece quatro vezes. Nenhuma delas é logo no cenário. A marca do filme é um número.
A tela do app é o único lugar em que a marca aparece antes do fim. Uber Moto, menos de 3 km, R$ 5,50. A interface é a do app mesmo. Plano detalhe de um segundo, legível.
Moto de parceiro, capacete com a marca. O produto em uso, do jeito que aparece na rua.
Não é promoção,
é Preço Único.
Viagens em Uber Moto de até 3 km por R$ 5,50. Sempre.
Aí sim.
O único lugar com logo. Fundo preto, tipografia Uber, o Aí sim. É este o letreiro final, como vai ao ar.
Como a marca aparece.
Um número. 5,50 na sopa, no relógio, no elevador, no cupom. Quando o app confirma o número, a marca vira verdade sem precisar de logo.
Não grita, não pisca, não ocupa cenário. Quem grita no filme é o varejo. A Uber é o contrário disso.
Aí sim é a assinatura da campanha. Fecha o filme e fecha cada peça curta, sempre depois de “Não é promoção, é Preço Único.” Preto, branco, tipografia Uber: o filme termina com a cara da marca.
O filme depende de um homem que não reage. E de gente em volta que também não.
O garoto-propaganda do varejo brasileiro, fazendo ele mesmo. A graça está no que ele não faz: o set desaba, o número aparece em tudo, e ele não muda a cara.
Nada de careta. O rosto do estúdio e o rosto do chuveiro são o mesmo rosto. A direção é tirar.
Um gesto só, o filme inteiro. Quando ele finalmente tira a mão do bolso, é para abrir o app.
Nunca aparece inteiro. Voz calma, de quem já disse isso mil vezes. Alguém dando uma notícia, sem maldade.
Terapeuta, oftalmologista, garçom: cara de quem trabalha ali, e não de elenco. Dirigidos para não achar graça, nenhum deles.
Aparece uma vez, na garupa, e vai embora. Precisa parecer um amigo que existe, o que sempre resolve.
O filme é enquadrado com o 9:16 no meio. Ele fica sempre no terço central. Nenhum plano precisa ser refeito para o celular.
Legenda queimada, o número sempre dentro do quadro, e o letreiro refeito em 9:16. Sem som, o filme se entende inteiro.
Quatro de 15", dois de 6" e quatro peças de social. Nenhum é redução do filme: cada um é uma cena nova com a mesma ideia.
15" · terapia
Repete comigo…
Na terapia. A terapeuta pede para ele repetir a frase nova: “Não é promoção. É Preço Único.” Ele gagueja no meio. Ela não reage.
15" · oftalmologista
O que você está vendo?
Exame de vista. No quadro de letras ele lê “PROMOÇÃO”. Está escrito “PREÇO ÚNICO”. A visão dele está ótima.
15" · bar
Carlos… Carlos?
No bar, ele explica ao amigo por que não pode ser 5,50 para sempre. A câmera abre: o Carlos já foi embora, na garupa de uma Uber Moto.
15" · quer pagar…
E aí? Quer-pagar…
O bordão dele, “quer pagar quanto?”, cortado antes do fim. Não tem quanto. É 5,50.
6" · comercial dentro do comercial
Quem anuncia é a tela.
Ele no sofá, vendo o próprio comercial. Na TV, ele grita promoção. No sofá, fica em silêncio.
6" · splash
O segundo cartaz corrige tudo.
Ele levanta um splash amarelo, o gesto de sempre. Um segundo cartaz, preto, aparece: “não é promoção”. O amarelo desce.
social · o teste
Ele vende qualquer coisa.
Dão para ele uma pedra, um tijolo, uma caixa vazia, um cone. Ele vende tudo. Depois dão o preço da Uber Moto. Não tem o que vender: já está barato.
social · a aula
Aula de urgência.
Ele dá aula de como criar urgência: “só hoje”, “últimas unidades”. O texto entra e corrige cada frase.
social · a pegadinha
Cadê a letra miúda?
Ele procura na sopa a letra miúda, o “só hoje” que sempre existiu. Não acha. E come.
social · a publi
Uma publi sem cara de publi.
Ele tenta gravar um post espontâneo, no celular, em casa. Não consegue. Desiste e faz do jeito dele.
fora do briefing
O espaço do desconto continua lá. Ninguém ocupa. Embaixo, uma linha só: Não precisa de promoção.
Obrigado.
Pedro GiomiAurora, para Wieden+Kennedy São Paulo e Uber.
As imagens deste documento são geradas por inteligência artificial. Servem de referência de luz, enquadramento, direção de arte e tipo físico. Não são frames do filme nem fotos de elenco.
tratamento 2 · Pedro Giomi · Aurora
Não é
promoção?
Uber Moto · Preço Único
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o corpo
em volta
o carlos
09:00 · estúdio
23:15 · a sopa
